terça-feira, 20 de abril de 2010

Vale a pena ler/ouvir.


Gemidos numa noite de domingo, madrugada. Lágrimas em gotas, em pingos são enxugadas. Vozes soadas com gritos em doses meio falhadas, abraços em amigos que trazem uma palavra. Lembranças já vêm da pequena criança que nem tinha maldade na mente. Dependente da mãe, que era crente no pai, era apenas um garoto inocente. Lembranças da criança em seu colo balançando, quando triste, ainda com fome, em seu colo só que chorando. Sua mãe lembra da sua formatura do prézinho, um bom menino, o aniversário de cinco aninhos. E pra comemorar o aniversário, tinha uma pá de criança em volta de um bolo feito de fubá. Com seu pai desempregado não tinha dinheiro nem pra mistura, sua mãe sem poder dar um presente, sentia culpa.
 "Sabe quanto eu lutei pra fazer você feliz? Eu te eduquei, não tinha dinheiro, mas te ensinei. A minha parte eu sei que eu fiz!"
 Maiorzinho ele estava, da sua idade, o mais ligeiro. Cabulava aula pra empinar pipa o dia inteiro. Era novo, mais se ligava no movimento, de pouco em pouco lhe falavam que ele tinha talento. Um dia ele viu um maluco com um boot muito louco, pediu um igual pra mãe e tomou croqui no côco. Não entendeu porque o outro podia ter e ele não. Estava cansado daquela miséria, de toda aquela situação.
 Com 13 anos de idade recebeu um bom presente da malandragem de onde morava, ficou contente. Uma proposta, cem reais pra levar mercadoria. Era fácil, é só entregar, e depois só alegria. Chegou esse garoto em sua casa esse dia, com mistura, sacolas de danone, a reveria. Surpresa, sua mãe quando abriu a geladeira deu sermão em seu filho com seu marido a noite inteira:
 "Da onde você arrumou? Que mercado cê roubou? Nunca te ensinamos isso!"
"Mãe não roubei! Esse dinheiro eu conquistei, ganhei com o esforço de meu serviço, é isso!"
 "Você nem trabalha menino! Quem te deu serviço assim, tão novo, tão cedo? E mesmo assim, isso é estranho pra mim, por que é que tem muito dinheiro?"
 Foi sermão a noite inteira, mas pra ele valeu a pena. Foi diferente de outros dias, dormiu de barriga cheia. Acordou cedo e disposto sem medo para o trabalho, entregaram uma arma na mão desse frangalho. Disseram que ele teria que cobrar uma dívida de um nóia que se ele teria que matar. Gelou, falou, pros malucos "aí num dá!". 'Os maluco disse' "ta na chuva é pra se molhar! Quer coragem? Tó, cheira dessa carreira, que com isso aqui cê vai ter coragem pra matar a noite inteira." E assim foi se tornando o mais psico da quebrada. Matava sem dor e sem dó, ossos do ofício, só pelo pó. A cocaína lhe fazia mais homem nessa sangria, um dia ele matou um homem com quinze tiros e ainda ria. Sua mãe, sua amiga de corrida a vida inteira, já previa e sentia o que no futuro aconteceria.
 E certo dia um jovem que era tirado pela maioria, só por que dizia que era crente e Jesus em sua vida sentia, parou esse garoto e disse pra ele mudar de vida, que aquela era sua chance, que Jesus o ajudaria. Nem deixou o crente terminar, já saiu socando, dando coronhada na cara e na nuca do fulano. Gritando, "Ta tirando, que mudar de vida?! Ta tirando, quer que eu volte a passar fome? Eu sou malandro! Ele se achava mais homem que qualquer um, uns diziam que tinha jurado um tal de Mussum. E na noite passada sua mãe ouviu uma de tiro, saiu lá pra fora e viu o tal Mussum matar seu filho. Saiu correndo e disse: "Deus, cê sabe que eu fiz de tudo, mas ele não me ouviu e preferiu esse outro mundo." No velório o pai e mãe chorando, poucas palavras, conversavam com o corpo do filho morto naquela sala.
"Sabe quanto eu lutei pra fazer você feliz? Eu te eduquei, não tinha dinheiro, mas te ensinei. A minha parte eu sei que eu fiz!"


 Por ter cessado sua existência terrena, entregaremos seu corpo a terra. Terra a terra, cinza a cinza, pó ao pó. O espírito, nós o deixamos nas mãos de Deus. Esse é o ponto final de uma vida. No sepulcro não há obras, nem conhecimento, nem sabedoria. E a ele todos nós iremos cedo ou tarde.
Confiemos naquele que diz:
- Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá.

0 comentários: